O marisco de 400 anos – como um pequeno molusco engana o tempo e vive através dos séculos.

“Posso ouvir o vento passar,
assistir à onda bater,
mas o estrago que faz
a vida é curta pra ver…”

(O vento, Marcelo Camelo)

Para alguns animais, a vida é ainda mais curta do que para outros. Quase tão curta quanto o breve intervalo de tempo entre marés. As efémeras são pequenos insetos que, como o nome sugere, vivem por pouco tempo, cerca de um dia. A efémera adulta vive algumas horas, não se alimenta e investe sua energia na reprodução, para deixar filhotes que também viverão somente o dia seguinte. Mas alguns animais tem uma estratégia de vida diferente e investem a maior parte da sua energia no crescimento e manutenção corporal. Pensando neste extremo oposto, tente adivinhar que animal vive por mais tempo e você provavelmente pensará nos elefantes, que vivem em média 70 anos, ou talvez nas tartarugas, que podem atingir 150 anos. Mas se engana quem pensa que eles batem o recorde. O recordista é um pequeno marisco, parente das ostras e mexilhões, chamado Arctica islandica. Ele vive enterrado no fundo do frio oceano Atlântico norte e pode viver mais de 400 incríveis anos.

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Figura 1: (A) Uma espécie de Efémera (Rhithrogena germanica), o animal que vive por menos tempo. (Foto de Richard Bartz). (B) Arctica islandica, o pequeno molusco que pode viver mais de 400 anos (Foto de Manfred Heyde).

A idade destes mariscos está literalmente estampada nas suas conchas. A cada ano de vida, novas linhas são impressas na parte interna e externa das conchas devido ao crescimento e a variações de temperatura e da disponibilidade de alimento, que ocorrem de forma cíclica, todos os anos. Quando cientistas encontraram indivíduos A. islandica com até 400 anos de idade, não houve como não se intrigar. Como eles conseguem viver por tanto tempo? Mas antes de responder a esta pergunta, é preciso entender o processo de envelhecimento.

Assim como o homem, todos os animais1 precisam respirar para sobreviver. É através da respiração que se obtém o oxigênio que as células usam para extrair energia a partir das moléculas de alimento ingerido. Mas, se por um lado o oxigênio é um elemento essencial, por outro, ele também é um fator determinante do envelhecimento e, consequentemente, da expectativa de vida do organismo. Em 1956, o médico Denham Harman propôs a “teoria das espécies reativas de oxigênio” para explicar o envelhecimento e desde então esta teoria vem se firmando com o acúmulo de evidências obtidas a partir de estudos com diferentes animais, entre os quais o marisco A. islandica.

Como resultado do metabolismo energético animal, o oxigênio é convertido nas chamadas “espécies reativas de oxigênio” (EROs), que são moléculas extremamente reativas, ou seja, que facilmente reagem com (oxidam) moléculas biológicas. Assim, as EROs causam danos nos componentes das células animais, como proteínas, DNA, carboidratos e lipídeos. Segundo Harman, é o acúmulo destes danos, ao longo do tempo, que resulta no envelhecimento do organismo que, com estruturas defeituosas, deixa de funcionar corretamente. Alguns fatores externos, como a luz ultravioleta e compostos tóxicos, podem induzir a formação das EROs. Mas, seriam as EROs produzidas durante o metabolismo energético normal as principais responsáveis pelo envelhecimento.

Quanto maior a demanda de energia do organismo, mais ativo será o seu metabolismo, mais oxigênio será utilizado e, logo, mais EROs serão produzidas. Mas não é preciso ter medo de respirar por isso. O oxigênio é extremamente vantajoso, pois permite extrair uma grande quantidade de energia das moléculas orgânicas obtidas na alimentação. E para não abrir mão desta vantagem, os seres aeróbicos – que dependem de oxigênio – possuem um sistema de defesa antioxidante e mecanismos de reparo e eventual eliminação das moléculas biológicas danificadas. Portanto, a velocidade de envelhecimento e o tempo de vida de um animal estão relacionados não somente com o nível de atividade do seu metabolismo (e produção de EROs) como também com a sua capacidade antioxidante e de reparar os danos causados pela oxidação.

Não foi uma grande surpresa quando cientistas encontraram apenas sinais insignificantes de envelhecimento em A. islandica, indicando que este animal realmente possui alguma estratégia bastante eficiente para driblar o envelhecimento e ter a maior longevidade do reino animal. Foram observados baixos níveis de danos causados por EROs (proteínas e outras moléculas oxidadas) nas suas estruturas celulares, níveis significativamente menores que os observados em outros mariscos de vida curta. E, além disso, a quantidade de proteínas oxidadas não aumenta com a idade de A. islandica.

Após a maturação sexual do A. islandica, que ocorre aos 33 anos, as defesas antioxidantes deste animal se estabilizam e não diminuem com a idade como ocorre em outros animais. Esta observação, em concordância com a teoria de Harman, ajuda a explicar os baixos níveis de danos celulares e, consequentemente, a longa vida deste animal.

A longevidade de A. islandica também está relacionada com o seu estilo de vida. Ele é pouco móvel e, portanto, tem uma demanda energética baixa. Ele pode ficar enterrado na areia durante dias, em temperaturas extremamente baixas e com grandes restrições alimentares. Todos estes fatores colaboram para que ele consiga reduzir o seu metabolismo a apenas 10% dos níveis normais e, portanto, também a produção de EROs.

Outros possíveis mecanismos ainda precisam ser investigados para compreendermos de forma mais completa todas as adaptações que permitem que este molusco viva por períodos tão longos. E mais que matar nossa curiosidade, estes estudos também nos ajudarão a compreender melhor o envelhecimento das nossas próprias células. Afinal, todos os organismos aeróbicos, desde um simples inseto até homem, estão sujeitos aos efeitos tóxicos do oxigênio, e, portanto, envelhecem através dos mesmos processos. Eles apenas lidam com o problema de formas e com eficiências diferentes.

1 Em 2010, cientistas italianos encontraram pela primeira vez animais capazes de viver em total ausência de oxigênio, nas profundezas do mar mediterrâneo. Os animais foram identificados como loriciferos, um pequeno grupo de animais microscópicos.

Por Juliana Alves Americo

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abele, D., Strahl, J., Brey, T., Philipp, E.E.R. 2008. Imperceptible senescence: aging in the ocean quahog Arctica islandica. Free Radical Research 42(5): 474-480.

Brittain, J.E. 1982. Biology of Mayflies. Annual Review of Entomology 27: 119-147.

Denham, H. 1956. Aging: a theory based on free radical and radiation chemistry. J Gerontol 11(3): 298-300.

Donavaro, R., Dell’Anno, A., Pusceddu, A., Gambi, C., Heiner, I., Kristensen, R.M. 2010. The first metazoa living in permanently anoxic conditions. BMC Biology 8:30.

Philipp, E.E.R., Abele, D. 2010. Masters of longevity: lessons from long-lived bivalves – a mini-review. Gerontology 56: 55-65.

Ungvari, Z., Ridgway, I., Philip, E.E.R., et al. 2011. Extreme longevity is associated with increased resistance to oxidative stress in Arctica islandica, the longest-living non-colonial animal. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 66A(7): 741-750.

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